Sempre achei amistoso algo bem chato. Antes de qualquer brincadeira de criança, combinava com os meus amigos se seria “na brinca” ou “na verda” e me lembrar disso traz uma sensação muito boa. Falo isso pois penso que amistosos são sempre “na brinca”. O jogo Brasil e Holanda só me convence que amistosos não deveriam ter o significado que têm.
Foi noticiado um dia: Brasil e Holanda vão jogar no Serra Dourada. O dia do início da venda dos ingressos era a minha preocupação. Sou de uma época em que ir a um evento era algo simples. Até mesmo no show do U2 em 98 não tive dificuldades em comprar o ingresso. O Rock in Rio parecia coração de mãe. Sempre havia lugar para um roqueiro atrasado. Hoje não. Qualquer evento com um pouco de mídia é um transtorno para aqueles que não gostam da pressão em ter que decidir meses antes a presença em um evento. O fim da picada foi o BMW Jazz Festival no Rio esse ano. Meu descaso culminou em não poder ver o show do baixista Marcus Miller. Os ingressos acabaram de madrugada na primeira noite. Mas Brasil e Holanda no “meu” Serra Dourada, não poderia perder. Como passo grande parte do meu tempo ouvindo rádios esportivas, estava tranqüilo em saber qual seria o dia inicial de venda de ingressos. Comprar o ingresso do jogo foi tão fácil como comprar o jornal Daqui no sinaleiro. Aliás, ingresso mais bonito que de qualquer show que já fui na vida.
A grata surpresa foi o esforço em fazer o Serra Dourada brilhar. Depois de muitos anos senti novamente orgulho do meu estádio. Não foi só um batom que passaram no serra. Deram um banho de loja. Do gramado ao estacionamento. Fiquei muito feliz. Talvez na mesma proporção da tristeza que me assolou no dia em que um gaúcho que trabalhava comigo falou sobre como tinha achado o Serra Dourada um estádio ruim e feio. Não tive argumentos a não ser falar para ele voltar para o sul.
Estranho foi o desânimo que me bateu hoje de manhã. Acho que foi um dos “hoje tem serra” mais xoxos que soltei na vida. Primeiro porque fui só e segundo é que me dei conta sobre o meu conceito de amistoso. A desculpa já na ponta da língua é que eu estava indo para ver craques internacionais do mais alto nível. A verdade parece me dizer que não gosto de jogos da seleção brasileira. Amistosos muito menos.
Eu estava desconfortável no estádio perto de tanta gente sem a “manha” de ir a um jogo de futebol. Pessoas que talvez perderam a única chance de ver um gol ao vivo em um estádio de futebol e que sentiram falta dos replays e da televisão com som baixo e muita conversa na sala ou em um bar.
Acho que o errado da história sou eu. Não senti a alegria em piscar mais demoradamente ao som do hino nacional assim como sinto nos jogos do Goiás. Hoje não teve aquele quase sorriso de canto de boca na hora que penso que poderia ser cantado “serra dourada” ao invés de “terra dourada” no hino nacional. Não vejo um pingo de graça na música “sou brasileiro com muito orgulho, com muito amor” mesmo sendo o que a música diz. Tenho quase certeza que isso é trauma da primeira copa por qual me apaixonei. Em 86, meus olhos brilhavam ao ver a seleção do Telê jogar. Aos sete anos fui capaz de perceber que meu pai, crítico contundente do técnico, poderia estar errado. Nada mais emblemático que a eliminação na disputa dos pênaltis. Nunca me conformei com o pênalti cobrado pela França que bateu na trave e entrou depois de bater nas costas do goleiro Carlos. O escudo da camisa do Brasil tinha a taça Jules Rimet. O escudo foi mudado. O Brasil ganhou copa mas nem mesmo a genialidade de Romário foi capaz de resgatar a alegria que eu sentia diante daquele escudo odiado por tantos. Eu tento. Acompanho os jogos e tenho meus palpites de escalação. Queria gostar mais de jogos da seleção brasileira.
O futebol envolvente da seleção se perdeu há muito tempo. Existe um fio de esperança no futebol do Neymar. Mas sinceramente acredito que nunca voltarei a ter orgulho comparável ao que tive pelo escudo com a Jules Rimet. Imagino a frustração dos mais antigos, que viram Pelé e Garrincha, diante do “sorriso alegre” e futebol improdutivo do “menino” Robinho.
Quanto ao jogo em si, deixo minhas impressões para outra ocasião.
Nenhum comentário:
Postar um comentário